sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Solidão

Para que olhar o mundo de fora
Se eu o enxergo de dentro
Dentro do meu ego aprisionado pelas lembranças
De quem eu fui um dia
Teu escravo, teu amante, teu pertence raro
A alma libertina que mais te desejou
O veneno perfeito que te matava
E consumia nas insanas noites de inverno
O teu prazer mais cobiçado
O antídoto para curar suas perversões e angústias
Frutos daquele teu objeto de satisfação: eu
Sabia que te era prejudicial, mas você sempre foi persistente
Gostava da inquietude, como um vício
Um vício cujo nome era o meu
Teus olhos percorriam as paredes
Dispersos, curiosos, entristecidos
Não me encontravam em lugar algum
Para onde foi?
Posso estar sufocado dentro da sua alma
Que busca enlouquecida pela minha
Tua boca que meus lábios deseja
O cheiro da minha pele que te consome
Ah! Diga... O quanto sentiu minha falta!
O teu falso sorriso não me engana
E nem alimenta contos criados pela sua mente fértil
Sinto seu sofrimento, longe de quem mais amou
Tuas confissões afirmam minhas contradições
Sorria triste para quem vê e eu de camarote
Contemplo a tua decadência


Texto produzido em 2OO7

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Nove e quarenta


Aquela manhã não parecia igual. O ar estava mais denso, o vento mais brando e o sol teimava em esconder-se atrás das nuvens.
Para ela, poderia ser um dia como outro qualquer. Para ele, uma esperança. Vidas que se cruzariam sem um motivo especial. Ela, viciada em pastilhas de hortelã e bandas alternativas, ele fã de Audioslave e literatura de ficção. Aparentemente, tudo e nada em comum. Vítimas do acaso? Talvez. Aquelas ruas extensas carregadas de histórias faziam-na perceber como sua vida era monótona. Decidiu encontrá-lo, mesmo sem uma desculpa pensada. Marcaram um encontro às nove e trinta. Às nove e quarenta ela chegou.

- Achei que não viria - disse ele em tom de alívio.
- Gosto de supreender - ela respondeu sorrindo.


Esse momento marcava a fusão das vidas de um professor e uma jornalista.
Inquietos, opinativos, rítmicos, sincronizados...






sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

E Deus tornou-se pós-moderno

Abrir os jornais e deparar-se com um "mar de gente" morta, não é nada agradável aos olhos, especialmente daqueles que afirmam crer em uma força superior chamada Deus. A tragédia no Haiti põe em discussão uma pergunta intermitente: Aonde estava Ele?
Bem, o GPS facilitou muito a vida do homem, provavelmente tenha facilitado a Dele também. O catolicismo prega: "Para entrar em contato constante com o celestial é preciso ir à igreja, frequentar as missas e ser um cristão praticante", isso significa que a fé tem localização, lugar marcado. Porém, a religião se contradiz espalhando a ideia de um Senhor onipresente. Se Deus é onipresente, por que devo ir até lá para encontrá-lo? Ele não estava no Haiti? Sabia disso? Talvez.
Humanos costumam usar essa "força sobrenatural" como fonte de expiação de suas culpas. O terremoto? Era vontade de Deus. O aquecimento? Deus quis assim. Não é essa a realidade!
A sociedade tecnológica evoluída e civilizada, deveria entender que coisas boas e ruins são resultados de ações cometidas a curto e longo prazo. O efeito estufa, o aquecimento global e os inúmeros desastres naturais não coincidem com obras de um ser cósmico ultra-poderoso comandante da Terra, apenas são frutos daquilo que nós plantamos.
As milhares de vítimas no Haiti não morreram pela vontade de alguém, morreram por conta de uma falha geológica causadora de um terremoto devastador. Se Deus soubesse utilizar melhor seu GPS, estaria lá para proteger aquele povo, os soldados brasileiros e Zilda Arns, um exemplo de cristã praticante...porém Ele não estava, ou talvez sim e não pôde impedir.
Não esqueçam: Somos os únicos reponsáveis por nossos destinos e pelos caminhos escolhidos. Quem sabe assim, entenderemos melhor o próprio mundo.
Deus tornou-se pós-moderno tentando acompanhar a ligeira evolução. Comprou um GPS e saiu com destino ignorado.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Paradoxo temporal


Primeira postagem do ano. Não vou desejar Feliz Ano Novo, nem boas vibrações e nem o diabo a quatro para ninguém, basta desses "ataques de carinho falso" anuais. Janeiro começou e quase nada muda. Pode parecer pessimismo e, até mesmo um olhar melancólico da vida, mas não é, meus caros isso se chama realidade.
Chega dezembro, todo mundo fica solícito, generoso, grato, sorridente, como se quisesse expurgar os pecados que cometeu o ano todo. É patético. No Orkut, são páginas e mais páginas de recados fofinhos e mentirosos.
As pessoas pouco se importam se você vai ter prosperidade ou não. Fato. Estou escrevendo como um desabafo, o fim de ano não muda caráter, tampouco converte. O engraçado na história é a maneira como o ciclo sempre se repete. Passadas as festas natalinas e de reveillon, segue-se o Carnaval, onde o "povão" se acaba nas orgias, na bebedeira e na besteira.
E vem a Páscoa! Ó, vamos agora abster-nos de carne em remissão dos pecados. Poupe-me. O domingo pascal é dia de morrer comendo chocolate, "churrasquear" (agora já pode se abarrotar de carne!) e assistir filmes babacas na TV. São datas meramente ilustrativas como as fotos publicitárias dos alimentos, só ilusões. O ser humano há muito tempo perdeu sua essência cooperativista e seja qual for a comemoração, limita-se a trocar presentes, bombons, tomar champanhe e ficar de porre.
O exemplo de benevolência é tão arcaico quanto desenhar em rochas. Talvez, esses homens primitivos, soubessem mais sobre o que eu estou tentando dizer. A evolução trouxe consigo a proximidade e a distância ao mesmo tempo.