sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Era fascinante ser cafona

















Quem me conhece bem, sabe o quanto eu gosto de remexer em artefatos saudosistas - nome chique para tralhas antigas - . Numa dessas minhas buscas por lembranças, encontrei uma carta recheada de antíteses, escrita pela minha melhor amiga há dez anos. Ao ler aquele pedaço de papel já meio amarelado, senti tristeza e alegria simultâneamente. Alegria por ter compartilhado de uma amizade tão verdadeira e, triste por notar que as coisas mudaram, para nós duas. Tínhamos sonhos parecidos, queríamos ser dançarinas profissionais e trabalhar juntas, encontrar dois príncipes encantados e sermos vizinhas. Fingíamos ser estrelas do axé music - eu sei, era cafona! - e dançávamos de cor todas as coreografias de duplo sentido, hits do final dos anos 1990. Eu era morena, ela... loira. Perfeito. Era o nosso pensamento. Porém, nossas vidas tomaram rumos totalmente opostos. A amiga extrovertida, com ares de comediante e veia artística saliente, escolheu casar-se, ter uma família e dedicar-se a ser uma mãe excepcional. Eu, depois de formar algumas bandas de rock fracassadas, ter alguns namorados errados e inúmeras decepções, decidi entrar para a faculdade, afiar meu sarcasmo natural e ser um pouco mais antissocial. "Irmãs" assim são raras, como rosas de Saron. Algumas amizades a gente carrega eternamente, mesmo longe e com as marcas do tempo estampadas no rosto.